Um treinador ter
todas as qualidades técnicas, significa sucesso?
Esta provado que não. Existem treinadores, que tem uma
preparação académica e assente em estágios em grandes clubes e com grandes
treinadores. Mas que isso não se traduziu em sucesso. Umas vezes por queremos
ser cópias dos melhores, outras vezes por querermos desenvolver um projecto,
que não esta talhado para o perfil do clube em questão, que vamos representar. Outras,
uma questão de dimensão do clube, onde temos de compreender onde eles podem
chegar, outras vezes, por questões culturais e sociais, por muitas vezes o
grupo em que vamos inserir o nosso projecto, não ter capacidade mental para
isso. Não porque o grupo, tenha um défice de inteligência, mas sim para eles
serem, de uma realidade totalmente diferente. Qualquer treinador tem que
pensar, antes de mais, o grupo que vai fazer parte. O que engloba esse grupo de
jogadores, equipa técnica, dirigentes, campeonato onde esta inserido, zona
geográfica onde o clube esta inserido, meio social que engloba este grupo.
Muito importante não esquecer que todo o humano tem os seus objectivos. E que o
seu grupo tem que ter um objectivo comum, que minimamente motive todas as
partes integrantes do grupo individualmente. Isso não e fácil, mas ao ser esquecido
acaba por a vitima ser sempre a mesma pessoa de sempre, o treinador.
Ainda esta época, tive um convite para treinar uma equipa,
sei como é óbvio ficar parado, apesar de estar a trabalhar com um clube e uma
empresa no desenvolvimento de parcerias desportivas, é gratificante esse
trabalho. O que gosto mesmo e amo é treinar. Mas aceitar um convite para
treinar, somente porque treino e estou no circuito, seria um erro maior ainda.
Do que nesta altura estar sem clube. Compreendo quem é profissional e a sua forma
de sustentar uma casa seja somente a actividade de treinar, que tenha que
arriscar, mesmo sentido que a oportunidade, tem poucas hipóteses de ser um
projecto de sucesso. O dia em que recebi o telefonema do presidente. Fiquei
feliz, afinal de contas um clube da 3 divisão, com alguma história, um
presidente educado. Que como todos os presidentes, cheio de vontade e ambição.
Mas devido a experiencia que hoje já tenho, apesar de ainda ser pouca, e aos
erros que cometi no passado que foram alguns, mas que serviram de lição. existe
uma filosofia que quando algo num trabalho de um treinador, quando não corre
bem, a culpa é dos árbitros, dos jogadores, da direcção ou da massa
associativa. Mas como treinador digo, temos sempre uma cota de responsabilidade
no insucesso, nem que seja por aceitarmos um projecto, que a partida já
sabíamos que estava condenado ao insucesso. Porque uma verdade que devemos
dizer como treinadores e lideres. Temos que assumir quando erramos isso vai nos
fazer ser melhores.
Regressando ao convite, como é normal fizemos aquela
conversa formal ao telefone, depois para nos sentirmos mais a vontade e
abordarmos todas as questões, que são logo importantes ficarem desde cedo
acertadas. Marcamos uma reunião para o dia seguinte. Fiz o meu papel recolher
toda a informação possível, sobre todo o universo do clube.
Constatei logo os
seguintes factos:
Na serie onde
estávamos inseridos:
- Nos últimos três
anos todas as equipas que tinham subido, tinham conquistado mais de 68%, dos
pontos em disputa. Isto queria dizer, que nas duas fases que o campeonato tem
da 3 divisão. Estão em disputa 32 jogos. Que isso equivale a 96 pontos. Isso
significa que teremos de atingir no mínimo 65 pontos. Para isso teríamos de ter
uma média pontual de 2,04 pontos por jogo. Isso significa na 1ª fase, fazer 44
pontos. Para estar na fase da subida. Que a cada volta teríamos de fazer 22
pontos na 1ª fase. Nos onze jogos de cada volta, vencer 7 jogos.
Isto porque no modelo deste campeonato, sou haver um objectivo possível
a subida de divisão. Por isso só poderia aceitar esse objectivo. Obviamente o
presidente ficou satisfeito com a minha ambição.
- Outro facto que
tínhamos nos últimos três anos, nesta serie que existia um desequilíbrio
evidente dos quatro primeiros, para as restantes equipas. Isto significava que
tínhamos que ter uma equipa para estar naquele lote de equipas. Sabíamos que
devido a localização das equipas e histórico. Essas equipas revelavam sempre
mais poder económico. Como equipas com jogadores não só da região. Mas com
diversos jogadores que a sua vida e só jogar futebol.
- Todas as equipas que
subiram os seus treinadores tinham como sistema de jogo e modelo de jogo,
assente no 4-3-3 em casa e no 4-2-3-1 fora. Equipas já com treinadores, que
trabalho bem princípios de jogo. Muitas vezes o seu modelo de jogo assente, em
transições rápidas, com jogadores rápidos nos flancos, utilizando um futebol
passe curto, tendo um homem na frente como referencia. Mas já equipas com
movimentos bem definidos. Uma das
maravilhas das redes sociais e internet. E podermos de uma forma rápida filtrar
informação que queremos.ao ver os nomes dos treinadores, que subiram constatei
logo, que das seis subidas, dos últimos três anos, iria ter dois deles, como
adversários, com diversos jogadores, que já tinham conseguido esse objectivo.
Por isso antes da reunião sabia, que o meu ponto de referência era essas duas
equipas.
Isto porque eu tive de identificar-me com a competição, que eu ia
disputar, é claro que tirei mais informação, de alguns jogadores, de clubes.
Quase não deu para dormir, mas tinha de chegar ao pé do homem, sem saber a
dinâmica desta competição. O facto e que estava mais identificado com a 2b,
zona sul. Do que esta serie da 3 divisão. Por isso por aprender com um projecto
menos conseguido. Por falta de conhecimento da competição, o conhecer a
competição e sua dinâmica, deu me uma confiança extra para a reunião.
- Outra informação
que tinha de tirar, foi sobre o clube para onde ia, a sua dinâmica, a forma de
estar, em si a dinâmica de todo o clube, o tempo era curto. Mas não podia
facilitar.
- Era um regresso ao nacional, o clube vinha depois de
muitos anos andar no distrital. Uma grande travessia no deserto. Que por mérito
próprio e um trabalho de grande qualidade, consegui-o o seu objectivo. Com uma
equipa jovem e com muito talento. O treinador que saiu teve um projecto melhor.
Obviamente levou 4 jogadores da sua confiança, e obviamente de grande
qualidade. Sabia que tinham saído 5 jogadores titulares. No total do plantel de
26 jogadores tinham saído 10 jogadores, com um abaixamento no orçamento, devido
a circunstâncias socioeconómicas do país e da região do clube, de 40%. Por as
notícias confirmadas por o próprio presidente, a imprensa regional.
- A equipa técnica iria ser eu mais dois homens da casa,
treinador adjunto e treinador de guarda-redes, dois elementos ligados a muitos
anos ao clube. Obviamente, pensei porque não pensou o presidente num projecto
de continuidade. Como ex-figuras do clube tem a sua ambição.
- Direcção do clube era curta, com um poder centralizado no
presidente. Pessoa que por a informação dada por amigos, correcta e honesta,
que a sua única ligação ao desporto era no dirigismo, há pouco tempo. Que com
muito trabalho e dedicação recuperou o clube, que tem no seu vice-presidente
para o futebol. Um ex-atleta o seu grande braço direito.
- Outra informação que obtive, e que a maior dos jogadores,
quase a sua totalidade jogadores da terra, com fortes ligações ao clube. Esse
traço era evidente.
Depois de ter toda a informação, a minha confiança era
óptima.
Os pontos que tinha
de saber, e o projecto que tinha de discutir.
1-º A nossa equipa não tinha, experiencia alguma na 3 divisão, todos os
jogadores iam conhecer um mundo novo. Sabia que não estava em causa o valor dos
atletas. Jogadores com uma forte ligação a terra. Por isso não poderia alterar
essa dinâmica, por isso jogadores a vir de fora teria de ser um número
reduzido. Para dar qualidade e experiencia ao grupo, jogadores que não seriam
só mais valias para o clube, mas sim para divisão onde estamos inseridos. Esses
números nunca poderiam ser mais de quatro atletas. Nas posições chave, mais que
substituir os jogadores que saíram. O importante será dar maturidade e
qualidade a cada sector. Não esquecendo a não preparação do clube para ter
jogadores de fora, toda a logística e despesas que isso acarreta.
2º O orçamento do clube, sabia que iria haver menos capacidade
financeira, só existia uma solução, dos 26 jogadores, saíram 10 jogadores. Por
isso eu só iria buscar 4 reforços. Ficando com um plantel de 20 jogadores, como
o futebol de formação tem realizado um bom trabalho, tinha que escolher alguns
juniores, para ser inscritos e trabalharem com a equipa principal. Sabia que
seria um risco devido a lesões, castigos. Sabia que poderiam existir forças
contra, já que esses jogadores em termos de subsídios, teriam uma grande
diferença para os jogadores da casa. Mas para o objectivo que tínhamos em mente
só tínhamos um caminho. Ter um grupo mais experiente, aumentar a qualidade do
grupo em termos técnicos. Com jogadores muito acima da média para a divisão que
estamos inseridos.
3º A equipa técnica todos nós, não tínhamos um conhecimento profundo da
serie onde estávamos inseridos, depois ir buscar um treinador adjunto, poderia
provocar, mal estar, já que estaria a demonstrar falta de confiança nos
elementos que lá estão. Isso nunca poderia ser o caminho, que eu já sabia
através do telefone. Que era um ponto de honra do presidente manter a equipa
técnica. Entendi, afinal foram eles que
levaram, de novo o clube aos nacionais. Eles por todo o conhecimento do clube e
dos jogadores seriam para mim muito importante, e teriam como é lógico, um
papel importante no trabalho que iriamos realizar. Agora para mim, era
importante ter um observador. Por uma questão não só ser importante, para
podermos preparar as equipa melhor para os jogos, mas sim para ajudar uma
rápida identificação, de todos nós.
- Por isso quando fui para a reunião, tinha estas três pontos que não
ia abdicar, de 4 jogadores de grande qualidade, para 3 divisão na serie onde
estávamos inseridos, trabalhar no mínimo quatro vezes por semana e ter um
observador. Porque já tinha muita
informação, mas sabia das condições, e até onde podia ir.
Na reunião não
chegamos acordo, e ficou amizade. O facto de me convidar para ver jogos e tudo,
e para aparecer. Que não o faço por respeito ao meu colega. De todas as
questões, atras referidas disse que não concordava com o contratarmos um
observador, porque as equipas vão acabar por se conhecer, mas o facto é que mais uma pessoa na equipa técnica, para além de
prepararmos os jogos de uma forma mais detalhada, iriamos ter mais uma pessoa,
que nos iria dar uma qualidade de treino maior durante a semana, preparando os
jogadores para todas as dificuldades. Depois expliquei que os elementos da casa
não ficariam, ultrapassados, já que essa pessoa, nos jogos teria sempre noutro
campo a trabalhar para nós. E só todos juntos, seriamos capazes de conseguir o
único objectivo a que eu aceitaria para treinar, a equipa subir de divisão, já
que esse é o único objectivo que existe esta temporada. Por isso dentro das
condições do clube apresentei aquelas propostas.
Apesar não termos chegado acordo, eu tinha que saber a dinâmica do
campeonato, a dinâmica do clube. Porque eu sabia que não podia chegar mudar
tudo, porque as mudanças criam receio nas pessoas. Como tinha que respeitar a
cultura existente no clube, e as suas condições financeiras. E não poderia
entrar num clube, a gastar energias a focar-me em argumentar e mudar tudo.
Sabia que tinha de ter pontos que não podia abdicar, não para impor respeito,
ou dizer quem manda sou eu. Mas sim para criar um caminho mais fácil para o
sucesso. Porque a sorte se trabalha.
Não fico feliz, por o início, de época desta equipa, que não venceu uma
única equipa na pré-epoca do nacional, que não venceu nenhum jogo do campeonato
e foi eliminada da taça de Portugal. Continuo achar que essa equipa ainda vai
fazer bons resultados. Porque tem jovens com muita qualidade. Agora a transição
para outra competição, o desconhecimento dessa competição. Compreendo que o
mister aceitou o desafio, fez com a melhor intenção, que é bom treinador. Mas
quando vamos para algo lado sem estarmos identificados, com o que vamos
encontrar. Muito dificilmente logo de inicio, os resultados serem fáceis de
conseguir. Não por uma questão de falta qualidade, mas sim por uma adaptação a
todos os elementos do grupo, já que com este treinador manteve toda a linha, da
anterior competição. Para todos é uma novidade. Por isso vai ter um trabalho
muito complicado por a frente, e acredito que a médio prazo vai vencer jogos.
Agora fica uma pergunta, será que quando a equipa já estiver estabilizada e
adaptada a nova realidade. Vai estar a tempo de lutar e ter confiança por
objectivo de vencer, ou mesmo ele vai estar a frente da equipa.
Eu dei este exemplo
meu, porque poderia de facto estar a treinar, mas será que estava a desenvolver
um bom trabalho, para o clube e para a minha carreira. Será que estava a fazer
tudo para ter sucesso. Mesmo quando estamos identificados com uma competição,
com um clube, uma região. Mesmo todas essas condicionantes, não nos garante
desde logo o sucesso, mas quanto mais reduzirmos os imprevistos ao máximo
possível, mais facilmente poderemos atingir o sucesso. Esta receita não e nova,
José Mourinho um dos principais mentores desta tese, que é bonita de ler e
falar, mas muitos treinadores não usam. Não sei se por uma questão cultura, ou
de querermos estar colocados numa equipa, o facto é que muitos e bons
treinadores chegam e desaparecem. Por uma questão simples tem preparação
técnica, mas não entendem muitas vezes comportamentos e dinâmicas de grupo. Em
Portugal a maior taxa de insucesso, esta ligada a esse factor. Por isso para chegarmos
ao topo temos que trabalhar todas as vertentes, mas acima de tudo conhecermos o
meio que nos rodeia.
Um abraço, e obrigado
a todos que me fizeram ver, os meus erros como lições para ser melhor.
